terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Amante De Crowley


Há poucos meses, Miranda de Castiérre havia se mudado para um local deserto em meio a grande metropole do centro do Rio de Janeiro, e, ali, alugara um grande apartamento, no último andar de um edifício antigo, cujas portas, rangiam e, todo o ambiente interno estava tomado com algum ar obscuro, - "Perfeito!" - exclamara Miranda, quando encontrou o apartamento pela primeira vez.
Agora, passados dois meses e meio, a gótica admiradora e compulsiva por Aleister Crowley, já havia fundido-se inteiramente com o seu novo lar e, decorou-o a seu gosto: Paredes cinzas, cortinas negras, rosas vermelhas espalhadas por todo o apartamento, incensos, velas e uma infinidade de imagens e livros sobre o Senhor Crowley.
Do aparelho de som: A canção "No More Tears" do Black Sabbath, cuja sonoridade, ecoava por todo aquele ambiente trevoso. Sentada na poltrona, Miranda lia 777 New York Weiser, de Crowley, cujos textos, dissolviam-se entre práticas pagãs e tântricas.
Transparecendo dentre a fina cortina negra, a lua intensa brilhava com sua cúpula completa.
Aos poucos, a madrugada ia chegando, e com ela, trazia os segredos mais profanos, luxuriosos e ocultos, cujos anjos abominam e os demônios exaltam, a cantarem um hino proibido, cujas bruxas abençoam e entoam aos Deuses, os mantras mais íntimos, regados de lascívia e delírios.
Uma bruxa não precisa reconhecer-se como tal. Há apenas a necessidade de seguir aquilo no qual se sente a vontade. Na sala, haviam quatro estantes entupidas de livros sobre os temas mais sombrios:
Paganismo, Ocultismo, Manon, Aleister Crowley, Livros de Edgar Allan Poe, Mary Shelley, além de biografias de Ozzy Osborn, Marilyn Manson e até livros religiosos de São Cipriano. Do lado esquerdo da janela da sala de estar, podia-se claramente observar um pequeno altar ao Sr. Crowley em meio a duas pequenas imagens - A de Bacco e a de Set.
Miranda tinha trinta e três anos e, desde a adolescência, vivia trancafiada em seu calabouço de ilusões, de um amor platônico, cujo pretendido, era o tão distante Senhor Aleister Crowley, ainda tão vivo em seus sonhos, sua espera e seus desejos masturbatórios durante noites de lua cheia.
Pois, tudo o que Miranda precisava, era, de algumas fotos de Crowley, o seu espaço íntimo, de algumas taças de um bom vinho tinto, além de seu macio e longo dedo indicador.
Na sala, ainda sobre a poltrona, só que agora nua, a bela bruxa gemia, aprisionada em sua auto-luxúria, uma noite de prazer intensa com Crowley. Agora, no aparelho de som, a música havia mudado e, enquanto Miranda se retorcia de prazer, entre suspiros agudos, a canção "Sabbath Blood Sabbath" ecoava viva dentre as paredes daquele lugar, onde, toda noite de lua cheia, a "Amante de Crowley" trazia-o até si, num ritual profano, regido por lascividade e pelo platônico amor que a mantinha viva dentre tantos pensamentos suicidas.
Do lado de fora, no céu, a Deusa exibia-se na forma da mais bela noite.


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Crônica.
Dedicada a Fernando Sehvenn e sua escrita poderosa.
Nada mais que um grande amigo.